bevare:

Pablo Picasso, L’Entreinte, 1901
— Você me acha louca?
— Não, não. No máximo você é um border collie: fica deprimida quando não tem comida, passeio e carinho.
— É, talvez eu possa subir e ficar mais um pouco.
E foi assim, ficando de pouco em pouco, que você ficou pra sempre, mesmo indo embora sem se explicar minutos depois.

— O jogo da amarelinha, Julio Cortázar  (via perfeitasimetria)

15th June, SundayReblog
Céu

Eu passava frenética nesse céu espetacular, tropeçando e avançando em minhas companheiras sem querer, em busca do meu destino que eu tanto almejava. Sempre olhava para frente, no máximo para os lados tentando dizer adeus a uma amiga ou outra, porém algo me chamou lá de baixo; lá onde o barulho é tanto  as vozes poucas. 
Não compreendo bem o som dos seres que habitam aquele globo azulado e branco, então a princípio ignorei o tumultuar de palavras que saía do plano inferior. Segui meu caminho. 
"Eu posso?". Escutei perfeitamente a dúvida gritante do rapaz, enquanto a moça, deitada, fixava os olhos em cada parte de seu corpo. Ela bebia, pude entender subitamente, de todas as memórias envolvendo aquele homem, como os sussurros secretos na escuridão de um movimento pelas estradas, o degustar do toque repentino da pele e tão aguardado encontro naqueles olhos miúdos e profundos. 
Não pude continuar meu percurso, já que ambos me seguravam enquanto tentavam decifrar o pensamento do outro. Dentro do homem os sentimentos mergulhavam, transbordavam em seu ser, então não pude compreender o que se passava ali, apesar de ter sido ele quem me tirara do meu rumo. 
Desta forma, voltei-me para a moça. Questionei desde o início o motivo daquela separação entre os corpos, sendo que as mentes se entrelaçavam singelamente. Vi que existiam obstáculos que seguravam-na naquele chão, não arriscando qualquer movimento que pudesse arrancá-la dali e prendê-la naqueles braços. As dúvidas açoitavam seu peito e doía confundir aquele em sua frente. Entretanto, a lógica travava uma luta contra a emoção, uma tentando subjugar a outra, não havendo ainda uma resposta de quem era a vencedora da disputa. 
Uma dúvida novamente ia se formando. Qual o significado daquela cena? O que compreendia aqueles seres estarem diante um do outro perante o céu, seu maior confidente ? Parecia que agora a mulher lia meus pensamentos. Eu não fazia ideia. Nem ela. Nem ele. 
Arrisquei a pensar que talvez o significado seja estarem ali, olhando para mim e minhas irmãs que às vezes se escondiam no breu, deliciando-se com o desconhecido, buscando no riso do outro a rima perdida, dançando na mente do outro, sentindo o calor de cada um meio à noite gelada de junho. Talvez fosse as árvores escondendo os murmúrios e os medos, camuflando o sentimento que teimava em correr por entre os galhos e as folhas, fazendo barulhos curiosos, unindo cada vez mais os corpos pela linha tênue do inesperado. Talvez fosse isso por si só: os olhos, as bocas, o emaranhado de fios em meio à grama úmida e as mãos enlaçadas. 
Ali fiquei até se separarem, mas depois não consegui seguir viagem. Agora sigo o casal tão abstrato que encontrei por acaso, este casal que clama as estrelas e a lua quando se encontram. Observo-os silenciosa, aguardando o dia em que se encontrarão de corpo e alma. Assim, poderei prosseguir mina viagem junto deles. Jamais estagnados. 

*Escreva, Jéssica. 

15th June, SundayReblog